"Diário de um capitão desesperado"
Naquele drástico ano de 1808, no calar da madrugada, todos os criados do rei corriam de um lado para o outro, como baratas, com tudo aquilo que podiam carregar - do Palácio Real de Portugal para os navios. Enquanto isso, D. João VI, gordo e acomodado, recitava esparsas ordens apressadas na intenção de que a Família Real portuguesa (acompanhada pelo medo de Bonaparte) logo estivesse preparada para fugir em direção à Colônia do Brasil.
Lembro-me muito bem deste episódio - conta o Capitão:
Eu estava a explicar aos membros da Família Real o que haveria de ter no navio:
- Aqui estão as frutas... Depois de comê-las fechem os armários para que os ratos não entrem... Aqui está a água... Temos o suficiente para três meses em alto mar... Usem somente o necessário...
Mesmo com estas simples e claras explicações sobre os mantimentos, percebi que D. Carlota Joaquina entendera tudo; mas tudo muito diferente do que havia eu dito... Em apenas dois dias de viagem atlântica ela já havia comido em demasia as frutas que ficavam na despensa – sempre deixando a portinhola aberta e a manta descoberta, a convite dos ratos e pragas entrarem.
E quando eu pensava que não poderia ficar pior... D. Carlota enchia piscinas d’água potável nas bacias de banho, acrescentando iguarias e patinhos... E com aquele cabelo, nada discreto e todo armado, se revelava uma velha louca; espirrando água por todo o convés. D. Carlota era mais mimada do que seu pirralho de dez anos... Eu, capitão, sobrecarregado de responsabilidades e de sentimentos que se misturavam, não sabia como agir... Vinha-me a vontade de afogar D. Carlota com seus patinhos; depois a vontade de me afogar também... Mas eu sempre me acalmava e, apenas falava:
- O que aconteceste à nossa água...
- Ai!Ai! – Respondia D. Carlota – Por que não experimenta também tomar um banho desses? É uma delícia!
Mas não adiantava... Por várias vezes expliquei sobre o racionamento da água; Ela nem dava atenção... Saía falando sozinha...
Enquanto isso, em Portugal...
Napoleão Bonaparte - com seus 1.65m de altura, bravura e coragem -, cavalgava com seu cavalo de cor preta, mas que se chamava Branco... Junto de seus soldados, Bonaparte estava pronto para guerrear em prol de seu Império...
‘Ei! Mas péra aí... Cadê o Rei?’
Nos mais de dois meses de viagem o Rei D. João VI muito vomitou – perdendo boa parte de seu enorme peso... A D. Carlota louca continuava, incessantemente, a fazer e seguir as normas ao contrário... D. Pedro I, pirralho espevitado, sempre me fazendo a mesma pergunta:
- Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar? - Estamos já a chegar?...
Durante a viagem, o navio parou por cerca de quinze dias – não havia vento! -Para meu desespero...
D. Carlota vivia no meu encalço, atrás de mim, dizendo:
- Eu quero nadar nessa enorme e límpida piscina!
(A enorme piscina era apenas o Oceano Atlântico).
Um dia, sem minha paciência e, de tanto ela me incomodar, arranjei uma corda e amarrei D. Carlota... Deixei-a ‘’brincando’’ nas enormes profundezas e ondas do Oceano Atlântico.
Mas o navio voltou a navegar...
D. Carlota avistou um dos gordos ratos, disse-me:
- Olhe, olhe! Esse rato parece-me suculento! Vamos caçá-lo, matá-lo e comê-lo... Não sei o porquê, mas a comida está acabando mesmo... Poderíamos fazer uma fogueira e assá-lo... Deve ficar bem gostoso!
- D. Carlota – eu dizia -, ratos transmitem pestes... Além disso, não é uma boa ideia acender uma fogueira num navio de madeira... O navio vai pegar fogo e afundar.
Retirei-me da presença da velha louca, mas fiquei a observar (Afinal, a minha vida também estava a bordo)... Mesmo avisando-a, D. Carlota tentou pegar o rato, mas não conseguiu... Ela também tentou fazer a fogueira, mas sem habilidade alguma: desistiu.
Bom tempo depois, quando chegamos à Bahia de Salvador; com os cabelos raspados por causa dos piolhos, eu tive que remar com um barquinho até a cidade baiana para repor os suprimentos do navio... Já era tarde e voltei muito cansado, mas mesmo assim, o Rei me ordenou a explicar e servir a comida que eu havia trazido... O Rei comeu muito. Afogava-se de tanto que comia... Antes de sair de Portugal, D. João VI era robusto, deveria pesar uns 110 kg... Mas depois de cruzar o atlântico e, de tanto vomitar com o balanço do navio, ele aparentava ter uns 80 kg.
Quando, finalmente chegamos ao Rio de Genero, a Família Real recebeu perucas para não demonstrar a difícil viagem marítima... Mas eu não usei peruca alguma. Eu era, apenas, um capitão em apuros (finais)... Somente uma das cerca de oitenta peças de roupas que o Rei trouxe foi-me emprestada (os ratos roeram quase todas ela)... Era uma roupa bem simples em comparação com as demais roupas do Rei e, é claro que não me caia bem; ficavam grandes... Por ordens de D. João VI, eu não podia desembarcar do navio com as roupas esfarrapadas ou de ceroulas...
Sinceramente, não sei como eu sobrevivi a tanta loucura... Mas o que sei, certamente, é que eu nunca desejei tanto chegar a um lugar como desejei chegar ao Rio de Genero... (Apesar de eu ter ficado louco).
02/08/2011
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